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As 10 dúvidas mais comuns sobre sexo
Quais as disfunções que podem levar à infertilidade?
É importante frisar que há uma distinção entre sexualidade-prazer e sexualidade-reprodução.
Porém, alguns problemas sexuais poderiam se constituir na causa de uma infertilidade,
uma dificuldade de gestação. Entre esses problemas, do lado masculino pode ocorrer
a disfunção erétil (impotência, termo impróprio, pejorativo), que impossibilita
o coito, a ejaculação retardada, que dificulta ou impede totalmente a ejaculação,
e a ejaculação retrógrada, onde o ejaculado, ao invés de se exteriorizar, retorna
para a bexiga. Uma situação bem mais rara é a ejaculação precoce muito grave, onde
o indivíduo não consegue o coito por ejacular antes da penetração. Em dez anos de
clínica, só tivemos um caso. Por parte da mulher, a infertilidade pode resultar
de uma disfunção no sexo prazer, o vaginismo, que impossibilita o coito por um espasmo
involuntário da musculatura vaginal. Outro problema em ambos os parceiros seria
um espaçamento muito grande entre as relações sexuais, devido a uma inibição no
desejo do homem ou da mulher.
Por que não consigo ter orgasmo?
Sem dúvida, a grande causa da dificuldade em atingir o orgasmo é causada pelo aspecto
psicológico e não orgânico/médico, o qual é muito raro. As principais causas de
anorgasmia na mulher se diferenciam, dependendo da fase de vida ou da faixa etária.
Na jovem, a “ditadura do orgasmo”, a ansiedade de performance e a compulsão em ter
o orgasmo, sem dúvida constituem-se nas principais causas. Na mulher mais madura,
as principais causas são a repressão e o desconhecimento corporal, principalmente
o desconhecimento do corpo erótico em detrimento do conhecimento muito profundo
do corpo higiênico. Outras causas são a ortodoxia religiosa, a descoberta de infidelidade
conjugal, o medo das reações que o orgasmo poderia gerar, a sensação de culpa, o
jogo sexual inadequado ou o parceiro inadequado. No Brasil, o percentual de mulheres
que nunca atingiram o orgasmo é maior do que 10%, girando em torno de 40%, pois
a prática masturbatória não é tão freqüente quanto nos países avançados.
Como posso controlar a minha ejaculação precoce?
A ejaculação precoce constitui um dos problemas mais fáceis de serem solucionados
em terapia sexual. Dentro em breve, vamos poder contar com a terapia farmacológica
coadjuvante, à base da dapoxetina (Priligy- nome do produto). A dificuldade de controle
ocorre devido a um aprendizado inadequado, a um aprendizado rápido ou ao fenômeno
de ansiedade de desempenho. No tratamento, é fundamental que a pessoa aprenda a
perceber a fase imediatamente anterior ao orgasmo. Para isso, a realização de exercícios
masturbatórios, inicialmente a sós e posteriormente com a parceira, primeiro com
a mão seca e depois com a mão úmida (lubrificante KY gel), poderia ajudar. Dois
tipos diferentes de exercícios podem ser utilizados: “stop-start” ou pare e reinicie
(interrupção do movimento da mão sobre o pênis quando o indivíduo percebe que vai
ejacular) ou o “squeeze” ou o exercício da compressão (faz-se uma compressão logo
abaixo da glande à nível dos sulcos quando o indivíduo percebe que vai ejacular).
O exercício é realizado três vezes, permitindo que a ejaculação ocorra somente na
quarta vez. Conseguido esse controle através do processo auto-erótico a sós ou na
presença da parceira, passamos para a etapa da penetração com a mulher em posição
superior, com repetição dos exercícios de pare e reinicie ou de compressão. O exercício
de compressão pode ser feito basilar, sem a retirada do pênis da vagina, ou da forma
anteriormente descrita, com a retirada do pênis da vagina. Havendo resultados positivos,
passa-se para o coito em posição lateral e por fim em posição clássica de homem
por cima, na qual o controle é mais difícil. Em geral, com poucas semanas o resultado
é bastante satisfatório.
Por que não consigo ter uma ereção?
Em nossa experiência, 70% dos problemas de ereção, se localizam na esfera psicológica
ou psicossocial, e 30 a 40% na esfera orgânica. Quanto maior a idade do indivíduo,
maior a possibilidade de comprometimento orgânico. A grande causa da dificuldade
de ereção é devida ao mito, presente na maioria dos homens, que diz que “homem não
falha”. Através de estudos científicos atuais, sabemos que a cada 5 ou 6 tentativas
é normal que o homem falhe 1 ou 2 vezes. Entretanto, o mito está de tal forma difundido
e introjetado na população que quando o homem falha, um ciclo vicioso inadequado
se instala. Na presença da falha, ocorre grande angústia e o homem se torna o espectador
de sua relação sexual, ou seja, ao invés de ficar no palco, ele passa para a platéia.
Suas sensações eróticas tendem a diminuir a nível cerebral, pois a resposta eretiva
é totalmente involuntária, e a perda da ereção persiste. A não elaboração do fracasso
leva o indivíduo a fracassar novamente. Outros fatores para a dificuldade eretiva
são a inibição, a repressão, a dificuldade de interação afetiva, mas o mito da máquina
masculina constitui a principal causa. Entre as causas orgânicas, podemos citar
as dificuldades no fluxo de entrada do sangue (problemas arteriais), no fluxo de
saída (causas venosas) e na condução nervosa ( neurológicas), que são mais raras.
Por que preciso mais de sexo que o meu parceiro?
É normal, e até saudável, que ambos os parceiros tenham um ritmo sexual diferente,
um com mais desejo que o outro. Tal diferença pode ser “negociada” de uma forma
positiva através de diálogo, de jogos sexuais descompromissados com o coito, de
fuga da rotina e do compartilhamento de fantasias. Porém, não é raro que as pessoas
procurem o terapeuta sexual com queixa de distúrbio de frequência de relacionamento
sexual, no qual um dos parceiros apresenta desejo muito maior que o outro, levando
a desarmonia conjugal, que também deverá ser trabalhada.
A fidelidade sexual traz monotonia?
O que é tedioso é a monotonia sexual que se instala na maioria dos casais à medida
que o tempo passa. Sem dúvida, o sexo monótono e tedioso é um sexo medíocre, e tende
a ser esconder na frigidez (termo impróprio, pejorativo) ou na inibição do desejo
sexual. É possível, em uma relação sem infidelidade, que os parceiros sejam criativos
e consigam impedir que a monotonia se instale. A infidelidade, muito freqüente em
nosso meio, resulta em problemas sexuais cada vez mais difíceis de serem solucionados.
Uma boa idéia para evitar a rotina é reconquistar o parceiro. Vale um telefone falando
de situações amorosas e fantasias, assim como o convite para um programa diferente.
Até os exercícios de contração muscular (Exercícios de Kegel) estão indicados para
melhorar o desempenho.
Por que perdi o desejo sexual do meu parceiro?
Este é um problema que atinge tanto homens como mulheres. No caso masculino, às
vezes, pode ser relatado erroneamente como falha de ereção, pois o homem remete
a maioria de suas sensações ao pênis. A inibição do desejo sexual geralmente ocorre
por problema psicológico ou psico-sócio-cultural. Entretanto, tal situação pode
ser devido a fatores orgânicos tais como problemas hormonais (baixa de testosterona
e aumento de prolactina), doenças sistêmicas descompensadas, uso constante de medicamentos,
principalmente ansiolíticos, antidepressivos, antihipertensivos. A inibição do desejo
de causa psicológica pode ser conseqüência de grande inibição em relação ao corpo,
auto-imagem negativa por aumento excessivo de peso, ou por um fator relacional devido
a habituação (monotonia) na relação de casal, agressividade ou alienação de um dos
parceiros. Após a gravidez, essa disfunção pode estar relacionada à dificuldade
da mulher em lidar com os seus papéis; mãe, esposa, amante, profissional. Nós percebemos
que essa inibição de desejo sexual é mais freqüente em mulheres que não vivenciam
a prática auto-erótica (masturbação). A medicina sexual tem evoluído a este respeito,
de modo a nos oferecer ajuda farmacológica coadjuvante, através da flibanserina.
Ë interessante relatar que foi uma descoberta ao acaso, pois originalmente foi desenvolvida
para o tratamento da depressão, percebendo-se no transcorrer dos estudos ser eficaz
no TDSH (Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo). Acredito que ainda este ano estará
disponível no mercado.
Minhas fantasias eróticas são estranhas?
Percebemos, entre as mulheres, uma dificuldade muito grande de vivenciar fantasias
sexuais. Entretanto, como dizia Helen Kaplan (sexóloga americana), o sexo é muito
de F grande de fantasia e f pequeno de fricção. O ideal seria que os parceiros compartilhassem
as suas fantasias, mas acredito que, em nosso meio, essa é uma realidade distante
para a maioria dos casais.
O meu problema é físico?
Ao perguntar aos clientes que idéia têm sobre a origem de seus problemas sexuais,
a maioria acredita que seja de causa orgânica, física, médica. É fácil entender
esse pensamento, primeiro porque o entendimento fica mais objetivo na visão do cliente,
e segundo, porque no caso de um problema físico, haverá uma terceira pessoa para
propiciar os cuidados, e ele não terá que se preocupar em cuidar de si. Como já
relatamos anteriormente, a maioria dos problemas sexuais, em nosso meio, não é de
origem física. Porém, é importante que o sexólogo tenha um urologista/andrologista,
no caso do homem, e um ginecologista, no caso da mulher, para afastar a possibilidade
de uma causa orgânica.
Sou sexualmente normal?
O padrão de normal e anormal na relação sexual de um casal é difícil de ser definido
e determinado. As pesquisas realizadas até o momento não forneceram um padrão de
sexualidade normal. Os critérios para uma avaliação de normalidade X anormalidade
são muitos e às vezes totalmente díspares. A relação entre normalidade, ordem ou
padrão e a transgressão, desordem ou desvio é dialética, sendo que um só pode ser
identificado em função do outro. De forma geral, podemos dizer que se uma pessoa
obtém prazer sexual de modo predominante ou exclusivo e precisa para isso utilizar-se
de um objeto ou objetivo condenado socialmente, ela é portadora de um de um distúrbio
de preferência sexual (parafilia, desvio ou perversão sexual). Porém, com relação
às fantasias e ao comportamento sexual é importante que exista respeito a si e ao
outro, para se falar em normalidade sexual.
Gerson Lopes
(Adaptada e atualizada de matéria na revista Desfile/junho 1995, na qual fui o entrevistado)