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Encontros e desencontros
Pensar na vida a dois é, ainda hoje, o maior desafio entre as pessoas e seus relacionamentos. Deparamos-nos com a situação em que as pessoas acham que encontrarão a pessoa ideal e que a partir disso não precisam fazer ou se empenhar em nada para que o relacionamento dê certo ou atenda às suas expectativas, porém este é um grande engano.
Por mais que se acredite ter encontrado a pessoa certa ou ideal, só isso não basta, pois esta certeza se resume em características de caráter ou personalidade com as quais se identifica, mas a pessoa escolhida também tem defeitos e diferenças, que faz com que ela pense e viva um mundo diferente.
No inicio do relacionamento tudo é novo, divertido, empolgante, sedutor e prazeroso, mas com o passar do tempo o encanto não é mais o mesmo, a dedicação é menor, o cuidado parece ser desnecessário, enfim o relacionamento vai tomando uma estrutura rotineira e habitual, reduzindo o interesse e a motivação em namorar ou o tesão e o desejo pelo sexo.
Além do que as atribuições profissionais, sociais e familiares também acabam por ocupar espaços importantes na vida do par, fazendo-os dedicados e empenhados em tudo exceto na atenção para com o outro. Comportamento comum nos relacionamentos, que quando estáveis, parecem não precisar de atenção especial, eventos diferentes, enfim um tempero rico em criatividade e vitalidade.
Os modelos que são propagados são exatamente de estabilidade sem sobressaltos nem grandes emoções o que torna o relacionamento cotidiano entediante e sem sentido, afinal não é preciso estar a dois pra viver essa vida. O grande desafio é como despertar a necessidade inovadora e renovadora num relacionamento estagnado e engessado. Criar espaço para o desenvolvimento e aprofundamento amoroso que é infindável e inesgotável, bastando desvelar o desejo e o interesse de cada um no que se refere aos próprios sentimentos e emoções desejados e talvez esquecidos ou adormecidos.
Casamentos acontecem sem planejamento ou sem que os pares se conheçam a fundo ou intimamente, depois, quando isso acontece vem a decepção e a frustração, que são inerentes a existência humana e a vida a dois. Muitos vêm e acreditam que o casamento é a finalidade, quando na realidade é o inicio de uma etapa da vida exigente e importante. Outros vêm o casamento como um sonho a ser realizado independente de tudo e de todos, um objetivo de vida seja como for e com quem for. Pessoas buscam constituir família e encontram no casamento a oportunidade de viver uma idealização de que assim tudo será lindo e maravilhoso.
Todos se esquecem de que por trás de um casamento existem duas pessoas, com origens e histórias diferentes, características e personalidades diversas; sonhos, desejos, ideais, objetivos e ambições iguais ou divergentes; expectativas quanto ao relacionamento, família, amor e sexo em constante mutação. Enfim, dois seres humanos repletos de diversidade que os tornam únicos e especiais. Seres pensantes e afetivos que avaliam, refletem e agem de forma particular, imprevisível e distinta.
Viver a dois é acima de tudo respeitar, tolerar, abdicar, ceder, suportar, fazer concessões e reconhecer os próprios limites, ser disponível e se dispor ao que for necessário; amar, mas amar intensamente e tanto quanto possível, sem limites, sem receio, sem medo, e sem fim. Sabendo que pode ser magoado e magoar, mas ainda assim amar, e amar mais e mais, até o próprio fim. A arte de viver a dois é escrita por aqueles que a vivem e não por quem supostamente tenha vivido uma vida feliz, por sermos seres ímpares cada relacionamento também é único e exclusivo.
Na medida em que as pessoas tenham essa percepção e assumam seu importante papel na construção de uma vida a dois, só assim, ela poderá seguir a rota para um caminho único, especial e inesquecível, fazendo de cada relacionamento uma história a ser escrita e contada.
Eduardo Yabusaki – colaborador do site. Psicólogo e Psicoterapeuta, terapia de casal e terapia sexual