Uma Avaliação com o Coração
Um bom vinho pode provocar no organismo uma série de sentimentos; por que não o amor?
Um bom vinho precisa despertar “algo mais”, precisa tocar de algum modo o coração das pessoas. Como nos encontros interpessoais, os passos a serem vivenciados em relação ao vinho são os mesmos de um encontro amoroso. Em geral, todo encontro amoroso começa pela atração, evolui para paixão, enamora-se e, termina em amor profundo, inesquecível. Ou nada disso pode acontecer.
Alguns vinhos exigem que os degustemos com alma, para que possamos compreender sua essência. Outros não encontram unanimidade: são dos tipos ame-os ou deixe-os, como alguns tintos de mesa do Novo Mundo, com teor alcoólico próximo de 16%, que tocam mais o fígado que nosso coração. Cada vez me canso mais desses vinhos pesados. Depois de uma taça, a boca já está entediada. O vinho tem que transmitir sempre, a meu ver, elegância e ternura. Muitos que estão disponíveis no mercado (e desses, quero distância) não são capazes de despertar em mim qualquer atração ou paixão, de modo que não tocam meu coração.
É possível conciliar uma avaliação de um vinho, em critérios objetivos, levando em consideração critérios também subjetivos? Acredito que sim. (In) felizmente, no mundo do vinho não há uma verdade absoluta e ninguém é totalmente dono dela. Por outro lado, concordo com Laurence Osborne quando diz em seu livro -“O connaisseur acidental” (Editora Intrínseca)-, que “o sistema de pontuação dá ao consumidor inseguro uma ilusão astuciosa de objetividade científica”. Por que então, não associar psicologia e sua valorização do mundo subjetivo, das emoções e sensações com alguma coisa mais matemática, ou objetiva como o sistema de pontuação? Por que não tentar conciliar o caráter subjetivo (emoção) que envolve a análise de um vinho com algo mais “operacional”, como é a escala de pontos?
Como avalio vinhos que degusto
Já algum tempo adoto uma forma de avaliação que não deixa de lado o sistema de pontos (até 100, como Robert Parker, como poderia ser até 20 como Jancis Robinson) e, ao mesmo tempo, categorizando-o de uma maneira que responde melhor a minha proposta de ligar o vinho à emoção (coração). Aqueles capazes de tocar meu coração recebem como avaliação uma taça no formato deste. À medida que despertam emoções mais intensas fazem com que a taça vá se preenchendo e, alguns (infelizmente, poucos) seriam tão especiais a ponto de flechá-lo, como na estória do Cupido. Se o vinho foi capaz de propiciar este momento mágico, sem dúvida é um “fora de série”, e não há como deixar de merecer uma nota de 96 ou mais pontos.
Por que associar um vinho “fora de série” (merecedor de 96 ou mais pontos) ao coração flechado, à flecha do cupido? Na mitologia grega entre os deuses do Olimpo estava Afrodite - deusa do amor e da beleza sensual. Capaz de seduzir todos, deuses ou mortais. O nome romano para Afrodite é Vênus (de onde vem a palavra vinho). Filho de Afrodite e Ares, Eros, o mais jovem dos deuses, se mostra um dos personagens mais complexos da mitologia grega. Ele personifica todos os sentimentos ligados ao amor e ao desejo; dotado de asas e armado de arcos e flechas que, quando atiradas certeiramente no alvo, deixam o coração dos mortais e dos imortais completamente inflamados de amor. Cupido é o nome romano de Eros.
“A primeira flecha ninguém esquece”, diz a música de Vinícius Cantuária e Evandro Mesquita, do mesmo jeito que o primeiro vinho degustado “fora de série” também não é jamais esquecido. A mesma coisa acontece com os demais “fora de série” que vão sendo degustados ao longo da vida. Nessa mesma música, os autores são felizes, quando dizem que “flecha de amor, não dói” - com a ressalva de que, no caso do vinho, pode doer no bolso, pois, geralmente, os dessa categoria são muito caros (e raros).
Gerson Lopes