Álcool e Doenças Coronarianas
“A penicilina cura os homens,
mas é o vinho que os torna felizes”
Alexander Flemming (1881-1945)
Segundo a Organização Mundial de Saúde, as doenças cardiovasculares respondem, anualmente, por mais de 16 milhões de mortes em todo o mundo.1 Só nos Estados Unidos da América, os custos dos tratamentos destas doenças, a cada ano, superam US$ 368 bilhões, ou seja, mais que a soma dos gastos com todos os tipos de câncer e com o HIV.2 Dentre as diversas doenças cardiovasculares, as responsáveis pelo maior número de mortes são as doenças coronarianas (1 em cada 5),3 sendo que indivíduos com angina pectoris e infarto do miocárdio têm suas expectativas de vida reduzidas em 7 e 9 anos, respectivamente.
A identificação dos fatores de risco destas condições (tabagismo, obesidade, sedentarismo etc.) tem sido objeto de milhares de pesquisas médicas nas últimas cinco décadas. Por outro lado, nos últimos 30 anos, estudos sobre a incidência das doenças coronarianas em diferentes grupos populacionais geraram uma série de hipóteses sobre substâncias presentes em nossa dieta com potencial “cardioprotetor”. Entre estas, uma que tem despertado grande interesse, tanto no meio médico quanto na população em geral, é o álcool (etanol) e, em particular, o vinho.4, 5
Por séculos, o homem vem debatendo se o álcool é algo bom ou ruim, tanto para o indivíduo em si quanto para a sociedade.6, 7 Em toda a História, o consumo de bebidas alcoólicas tem sido estimulado, regulado ou até mesmo proibido por sociedades, governos e religiões. Muitas vezes, estas decisões carecem de respaldo científico ou racional.
A relação entre consumo de bebidas alcoólicas e doenças cardiovasculares é complexa e ainda não está completamente elucidada.8 Entretanto, cerca de 100 estudos epidemiológicos realizados em diversos países e envolvendo centenas de milhares de indivíduos têm demonstrado que um consumo moderado de bebidas alcoólicas diminui a mortalidade, principalmente por uma redução na incidência de doenças coronarianas.4, 5, 7-18
.jpg) |
Na maioria dos estudos prospectivos publicados sobre a relação entre álcool e risco de doença coronariana, o efeito “cardioprotetor” máximo é demonstrado com a ingestão regular de uma a duas doses de álcool por dia. Por outro lado, o consumo exagerado aumenta a mortalidade.4, 7, 19 Apresentando a correlação entre consumo de álcool e risco de doença coronariana sob a forma de um gráfico, observa-se que a curva adquire a forma de um J. Abstêmios têm um risco “padrão”, considerado como sendo 1. Em geral, o consumo moderado de álcool reduz o risco de doenças coronarianas em 25 a 50%.10, 11, 14, 19, 20 No maior estudo publicado até hoje, Thun et al. acompanharam 490.000 indivíduos por um período médio de nove anos e observaram que os homens e mulheres que consumiam uma dose de álcool por dia tinham uma redução na mortalidade por doenças cardiovasculares de 30 a 40%.
Em uma meta-análise (estudo de vários trabalhos publicados) realizada por Corrao et al., englobando 51 estudos que correlacionaram álcool e risco de doença coronariana, os maiores benefícios foram observados com o consumo de 25 gramas de álcool por dia .20 Consumos maiores reduzem os benefícios, podendo até prejudicar a saúde (acima de 60 g).16
Ao comparamos o consumo entre homens e mulheres, notamos que, no sexo feminino, os maiores benefícios são obtidos com até 10 g de álcool por dia . Esta significativa “desvantagem” das mulheres não está completamente compreendida; entretanto, algumas hipóteses parecem justificá-la. Mulheres antes da menopausa possuem risco menor de doença coronariana e, provavelmente, se beneficiam menos dos efeitos protetores do álcool. Além disso, geralmente apresentam menor estatura e maior suscetibilidade ao desenvolvimento de cirrose hepática. Sabe-se, ainda, que mulheres que ingerem álcool em excesso apresentam maior risco de câncer de mama.7 Evidências sugerem que os efeitos benéficos do álcool em mulheres dependem também da faixa etária, sendo que a curva em forma de J só é observada após a menopausa.10
Álcool, Vinho, Cerveja ou Destilados?
Como visto acima, as evidências de que o álcool tem propriedades “cardioprotetoras” aumentam continuamente. Entretanto, uma questão ainda é objeto de calorosos debates: será que o consumo de diferentes bebidas (vinhos, cervejas, destilados) altera de forma significativa os riscos de doenças coronarianas? Vários estudos epidemiológicos tentaram responder esta pergunta.
Gronbaek et al. acompanharam 24.523 pessoas (13.064 homens) entre 1964 e 1995 e observaram que os indivíduos que bebiam vinho de forma regular e comedida tinham um menor risco relativo de morte por doenças coronárias (58% contra 76% nos que bebiam cerveja e/ou destilados).12
Na meta-análise conduzida por Di Castelnuovo et al., incluindo 26 estudos com mais de 209.000 pessoas, os indivíduos que ingeriam vinho tinham um risco de doença vascular 32% menor que os abstêmios. Em contrapartida, entre os bebedores de cerveja, este risco era reduzido em apenas 22%.15
Muitos especialistas no assunto, entretanto, não acreditam que o vinho seja significativamente superior às outras bebidas na prevenção de doenças coronarianas.4 Ao estudarem mais de 38.000 pessoas por 12 anos, Mukamal et al. não observaram diferença no risco de infarto do miocárdio entre bebedores de vinho, cerveja ou destilados.17 Esta é a mesma conclusão da meta-análise realizada por Rimm et al., incluindo mais de 305.000 indivíduos.21
Possíveis explicações para estas discrepâncias entre os estudos epidemiológicos já foram formuladas. Alguns autores acreditam que o consumo de vinho possa estar associado a um estilo de vida mais saudável (dieta, atividade física, educação, nível socioeconômico etc.) quando comparado ao consumo de cerveja.7 Curiosamente, uma pesquisa conduzida na Dinamarca sugeriu que a inteligência também poderia influenciar os resultados dos estudos epidemiológicos. Neste trabalho, Mortensen et al. mostraram que bebedores de vinho pareciam mais inteligentes que aqueles que consumiam cerveja ou destilados.22 Todavia, quando estas variáveis que podem causar confusão são afastadas, os resultados mostram que é o álcool o principal agente “cardioprotetor”. Qualquer benefício além do obtido pelo álcool parece ser mínimo, ficando restrito a certas populações.5, 8, 17, 21
Mecanismos de “Cardioproteção” do álcool
Alteração nos Níveis de Lipoproteínas
O consumo parcimonioso de álcool está associado a um aumento de 10 a 20% nos níveis de HDL, respondendo por 40 a 50% dos efeitos benéficos do álcool nas doenças coronarianas.4, 7, 19, 21 Este aumento é similar ao obtido com exercícios físicos ou uso de alguns fármacos.4 O HDL remove o colesterol da parede das artérias, transportando-o de volta para o fígado. Além disso, é provável que o HDL tenha outros efeitos benéficos sobre o sistema arterial.
Efeito Antitrombótico
O consumo moderado de álcool é capaz de inibir a hipercoagulação ao reduzir a contagem de plaquetas e ao atenuar a ação das mesmas (ação antiplaquetária semelhante à da aspirina). O álcool, ademais, reduz os níveis séricos de fibrinogênio, a contagem de glóbulos brancos, a viscosidade do plasma e as concentrações de certas proteínas envolvidas na coagulação.4, 7, 21 Vale ainda salientar que o consumo agudo e exagerado pode ter efeito oposto, levando o indivíduo a um maior risco de trombose (é notória a grande incidência de acidentes vasculares cerebrais isquêmicos em alcoólatras).
Atividade Antioxidante
O vinho é composto por mais de 1.000 moléculas diferentes, muitas delas quimicamente ativas (embora a ação biológica da grande maioria ainda seja desconhecida). Um copo de vinho tinto tem o mesmo poder antioxidante que sete copos de suco de laranja e 20 de suco de maçã.7 A quercetina, um composto polifenólico presente nos tintos, é capaz de inibir totalmente a oxidação do LDL.
Outros prováveis efeitos 8, 16, 23
-
Melhora na resistência insulínica;
-
Alteração no perfil hormonal, particularmente através de um efeito estrogênico;
-
Vasodilatação através de um de seus metabólitos, o acetaldeído;
-
Redução da inflamação associada à placa aterosclerótica;
-
Ações sobre o óxido nítrico (vasodilatador), endotelina (trombogênica) e oxidação do LDL.
Recomendações (segundo a Academia Americana do Coração)19
-
Consulte sempre um médico antes de iniciar o consumo regular de álcool. Os benefícios e riscos desta mudança de hábito devem ser avaliados caso a caso. Indivíduos com história pessoal ou familiar de alcoolismo, hipertrigliceridemia, pancreatite, doença hepática, algumas alterações sangüíneas, insuficiência cardíaca e hipertensão não controlada, assim como grávidas e pessoas em uso de certas medicações não devem consumir álcool;
-
Se não houver qualquer contra-indicação, o consumo moderado (uma a duas doses por dia) pode ser considerado seguro;
-
Álcool não deve ser consumido ao se dirigir ou operar máquinas;
-
Os riscos e benefícios da ingestão regular de álcool devem ser reavaliados periodicamente, como parte de um programa regular de cuidados à saúde. Nos casos de consumo exagerado, dependência e efeitos indesejados, as recomendações devem ser revisadas;
-
Adolescentes e adultos jovens devem ser orientados precocemente, antes que atitudes potencialmente deletérias transformem-se em hábitos.
Conclusão
Qualquer recomendação sobre o consumo de álcool deve levar em conta não apenas as complexas relações entre álcool e doenças coronarianas, mas, também, as conhecidas associações entre o seu consumo exagerado e os riscos à saúde (do indivíduo e da coletividade).19 Falando sobre o papel do álcool na sociedade, Abraham Lincoln observou que “ninguém pensou que os danos pudessem ter surgido do uso de algo ruim, mas sim do abuso de algo muito bom”.24 Com efeito, a sugestão de Platão, “nada em excesso”,6 proferida há cerca de 2.400 anos e citando a inscrição do Oráculo de Delfos, parece ser a abordagem mais atual e sensata sobre este assunto tão fascinante.
.jpg) |
Gustavo Andrade de Paulo -
Médico e editor – assistente da revista Wine Style, (www.winestyle.com.br) |
Referências Bibliográficas
1. World Health Organization. The world health report 2004 - changing history. Geneva: World Health Organization; 2004 2004.
2. American Heart Association. Heart disease and stroke statistics - 2004 update. Dallas, Texas: American Heart Association; 2003.
3. Bakhai A. The burden of coronary, cerebrovascular and peripheral arterial disease. Pharmacoeconomics 2004;22 Suppl 4:11-8.
4. Goldberg IJ, Mosca L, Piano MR, Fisher EA. AHA Science Advisory: Wine and your heart: a science advisory for healthcare professionals from the Nutrition Committee, Council on Epidemiology and Prevention, and Council on Cardiovascular Nursing of the American Heart Association. Circulation 2001;103(3):472-5.
5. Rimm EB, Stampfer MJ. Wine, beer, and spirits: are they really horses of a different color? Circulation 2002;105(24):2806-7.
6. Potter JD. Hazards and benefits of alcohol. N Engl J Med 1997;337(24):1763-4.
7. Hill JA. In vino veritas: alcohol and heart disease. Am J Med Sci 2005;329(3):124-35.
8. Fuchs FD. Vascular effects of alcoholic beverages: is it only alcohol that matters? Hypertension 2005;45(5):851-2.
9. Gronbaek M, Deis A, Sorensen TI, Becker U, Schnohr P, Jensen G. Mortality associated with moderate intakes of wine, beer, or spirits. Bmj 1995;310(6988):1165-9.
10. Fuchs CS, Stampfer MJ, Colditz GA, Giovannucci EL, Manson JE, Kawachi I, et al. Alcohol consumption and mortality among women. N Engl J Med 1995;332(19):1245-50.
11. Thun MJ, Peto R, Lopez AD, Monaco JH, Henley SJ, Heath CW, Jr., et al. Alcohol consumption and mortality among middle-aged and elderly U.S. adults. N Engl J Med 1997;337(24):1705-14.
12. Gronbaek M, Becker U, Johansen D, Gottschau A, Schnohr P, Hein HO, et al. Type of alcohol consumed and mortality from all causes, coronary heart disease, and cancer. Ann Intern Med 2000;133(6):411-9.
13. Hu FB, Stampfer MJ, Manson JE, Grodstein F, Colditz GA, Speizer FE, et al. Trends in the incidence of coronary heart disease and changes in diet and lifestyle in women. N Engl J Med 2000;343(8):530-7.
14. Stampfer MJ, Hu FB, Manson JE, Rimm EB, Willett WC. Primary prevention of coronary heart disease in women through diet and lifestyle. N Engl J Med 2000;343(1):16-22.
15. Di Castelnuovo A, Rotondo S, Iacoviello L, Donati MB, De Gaetano G. Meta-analysis of wine and beer consumption in relation to vascular risk. Circulation 2002;105(24):2836-44.
16. Rehm J, Sempos CT, Trevisan M. Alcohol and cardiovascular disease--more than one paradox to consider. Average volume of alcohol consumption, patterns of drinking and risk of coronary heart disease--a review. J Cardiovasc Risk 2003;10(1):15-20.
17. Mukamal KJ, Conigrave KM, Mittleman MA, Camargo CA, Jr., Stampfer MJ, Willett WC, et al. Roles of drinking pattern and type of alcohol consumed in coronary heart disease in men. N Engl J Med 2003;348(2):109-18.
18. Trichopoulou A, Costacou T, Bamia C, Trichopoulos D. Adherence to a Mediterranean diet and survival in a Greek population. N Engl J Med 2003;348(26):2599-608.
19. Pearson TA. Alcohol and heart disease. Circulation 1996;94(11):3023-5.
20. Corrao G, Rubbiati L, Bagnardi V, Zambon A, Poikolainen K. Alcohol and coronary heart disease: a meta-analysis. Addiction 2000;95(10):1505-23.
21. Rimm EB, Klatsky A, Grobbee D, Stampfer MJ. Review of moderate alcohol consumption and reduced risk of coronary heart disease: is the effect due to beer, wine, or spirits. Bmj 1996;312(7033):731-6.
22. Mortensen EL, Jensen HH, Sanders SA, Reinisch JM. Better psychological functioning and higher social status may largely explain the apparent health benefits of wine: a study of wine and beer drinking in young Danish adults. Arch Intern Med 2001;161(15):1844-8.
23. Corder R, Douthwaite JA, Lees DM, Khan NQ, Viseu Dos Santos AC, Wood EG, et al. Endothelin-1 synthesis reduced by red wine. Nature 2001;414(6866):863-4.
24. Friedman GD, Klatsky AL. Is alcohol good for your health? N Engl J Med 1993;329(25):1882-3.